Um projeto, por definição, cria um produto, serviço ou resultado único, exclusivo. Mas quão único é este resultado? Já parou pra pensar a respeito?
Se nunca fez isso, aproveitemos o momento pra refletir um pouco.
Situação A: Suponha que você trabalhe em uma instituição de alta tecnologia e receba a incumbência de gerenciar um projeto de criação de um sistema imunológico artificial, que será posteriormente utilizado em chips tolerantes a falhas (antes de me chamar de louco saiba que tem gente por aí tentando produzir algo nesta linha). Inovação da pesada hein? Provavelmente ninguém nunca fez isso antes e quem teve a idéia de levar a iniciativa adiante provavelmente não sabe exatamente como chegar lá. O processo de criação de um produto desta natureza está longe de ser prescritivo. Ao contrário é provavelmente altamente empírico, o que quer dizer que algumas tentativas e erros podem e devem acontecer pelo caminho.
Situação B: Você agora é um gerente de projetos de uma empresa de infra-estrutura de TI convencional. Já implementou dezenas de redes de computadores em escritórios deste “Brasilzão” afora e acaba de ser nomeado GP para um nova inciativa do gênero. O passo a passo pra resolver a demanda do cliente é bem conhecido. Você tem documentado um processo de implementação de redes que, tirando algumas coisas que sempre variam caso a caso, funciona bastante bem de modo geral.
Situação A e Situação B podem ser tratadas como projetos, certo? No caso da Situação A creio não haver muita dúvida. Em B, é bom lembrar àqueles que ainda não estão muito seguros que “algumas coisas sempre variam caso a caso” e que “Deus está nos detalhes” – esta última frase não sei exatamente de quem é mas sempre gostei dela e acho que se encaixa bem aqui.
Dado que consegui convencê-los que ambas as demandas podem ser consideradas projetos (se alguém ainda não se convenceu comente o post logo abaixo dizendo porque
), podemos afirmar também que as duas devem ser planejadas, monitoradas e controladas. Mas será que devemos planejá-las, monitorá-las e controlá-las da mesma forma? Veja a figura abaixo. Ela nos ajuda a clarear um pouco a situação:
Veja que a demanda B pode ser classificada como projeto, mas situa-se próximo ao que costumamos chamar de “Operações Continuadas”, para classificar aquilo que é repetitivo. Já a demanda A está muito próxima do outro extremo do desenho. Denominei esta outra extremidade de “Mundo Completamente Desconhecido”, mostrando que, quando mais para direita, mais nebuloso e indefinido é o resultado que se espera do projeto. O ponto “Marco zero de projetos” é conceitual e serve apenas para mostrar que a partir de algum momento, algo deixa de ser repetível e contínuo para se tornar temporário e exclusivo.
Algumas conclusões interessantes podem ser tiradas deste desenho:
- A primeira é que a distinção entre operações continuadas e projetos não é discreta, mas contínua. Existem operações continuadas muito padronizadas (ex: produção de tijolos), operações continuada menos padronizadas (ex: manutenções de software não projetizadas), projetos com produtos finais pouco exclusivos (situação B) e projetos com produtos finais muito exclusivos (situação A);
- E a segunda, retornando à nossa dúvida que ficou em aberto é: apesar de A e B serem considerados projetos, tratam-se de duas demandas com perfis bastante diferentes. Assim a abordagem gerencial para conduzir as duas iniciativas será, naturalmente diferente.
Em B as entregas, tanto finais como intermediárias, podem ser delineadas com boa precisão. Afinal de contas isso já foi feito dezenas de outras vezes. É possível definir, seqüenciar e estimar recursos e durações com boa taxa de acerto para uma quantidade razoável de atividades, até mesmo para algumas próximas do final do ciclo de vida do projeto. Ou seja, enxergamos com clareza todo o fluxo de atividades a ser desenvolvido, do início ao fim do projeto.
Em A as coisas já são mais complicadas. Tem-se uma idéia do que se quer ao fim do projeto, mas é impossível definir-se logo no primeiro ciclo de planejamento, de forma prescritiva, a seqüência de todas atividades a serem executadas para chegar-se ao produto final. Produtos intermediários são gerados e seus resultados são analisados para se definir etapas posteriores e em alguns casos para se decidir se o projeto segue ou não adiante. É possível planejar, monitorar e controlar mas a filosofia é outra. O produto final é mais ou menos conhecido. Há objetivos traçados. Mas o caminho que é percorrido é definido ao longo do projeto. Planejado sim, mas com antecedência menor.
De forma bem pragmática, executar um projeto como o descrito em B é parecido com viajarmos para o Nordeste comprando um pacote turístico. Sabemos que vamos conhecer 5 cidades, os hotéis em que vamos nos hospedar, os passeios que vamos fazer (inclusive com os horários). Sempre tem algum imprevisto, mas de modo geral a coisa não muda muito. Executar A é mais ou menos como viajar para o Nordeste por conta própria com o hotel para o primeiro destino reservado e um objetivo de conhecer outras 4 cidades. Que outras 4? Ainda não sabemos, mas quando estivermos prestes a sair da primeira já teremos reservado o hotel para a segunda, tendo inclusive uma boa idéia de quando iremos para a terceira. Alguém poderia me dizer: o bom mesmo é pegar o carro e ir viajando sem destino certo… Parando quando der vontade, conhecendo praias nunca antes visitadas, decidindo tudo na última hora, sem plano algum. Eu diria que um comportamento assim pode até funcionar… pra sua próxima viagem para o Nordeste. Mas nunca para a criação de um sistema imunológico artificial. Entendeu a diferença?

Novembro 12, 2008 às 6:41 am |
Andriele, esse artigo chegou em uma hora ótima.
Será muito útil nos meus próximos dias.
Ah, entendi a diferença, viu?
Um abraço,
Helena
Novembro 12, 2008 às 12:08 pm |
Oi Andriele,
Em primeiro lugar parabens pelo texto, acho importante esse tipo de discussão, mas acho que voce pegou uma vertente que discordo.
Existem coisas diferentes em todos os projetos, mesmo na implantação uma rede de computadores, voce precisa conhecer a estrutura, saber se a rede passará por uma linha de interferencia magnética (nesse caso precisa de cabos blindados) se vai conectar predios diferentes (Fibra-ótica), se a equipe que vai implantar o projeto tem experiencia ou não etc…
TODO PROJETO deve ser tocado de forma diferente.
Já quando a se são projetos ou não, eu digo que o Primeiro caso NÃO É PROJETO, pois com tantas incertesas ele não pode ter Prazo determinado, nem custo e nem mesmo Escopo…
ë melhor trata-lo como um PROGRAMA e definir projetos menos, ou os problemas não poderão ser controlados.
Novembro 12, 2008 às 11:51 pm |
Olá Luiz,
Muito obrigado pela visita e pelo comentário!
Creio que em relação ao primeiro ponto colocado por você não discordamos. Tenho absoluta convicção de que existem coisas diferentes em todos os projetos. Discordar disto seria ir contra o próprio conceito de projeto. Meu ponto é: existem projetos em que há MAIS coisas diferentes ou desconhecidas do que outros. E nisto eu acredito piamente. Há áreas muito mais dominadas e repetíveis que outras, ainda que projetos possam ser executados em todas elas.
No que diz respeito ao segundo ponto colocado por você, aí sim temos uma divergência. Não creio que a saída para tratar uma demanda com alto grau de incerteza passe NECESSARIAMENTE por tratá-la como um programa. Acho aliás, que a diferença entre um projeto dividido em subprojetos ou fases bem definidas e um programa sem operações continuadas (ou seja composto apenas por um conjunto de projetos) é extremamente sutil, se você analisar friamente o Standard de Programas do PMI. Até acho que o exemplo que mencionei talvez pudesse ser tratado como um programa sim. Mas nunca afirmaria categoricamente que NÃO É UM PROJETO.
Novembro 13, 2008 às 6:29 pm |
Prezado Andriele ,
Trabalho com inovações , muitas dos nossos projetos , quando começamos não tinham nenhum tipo de documentação , buscamos os resultados empiricamente , mas sim temos um escopo definido , uma estimativa de custo o que nao temos e prazo , mas usamos toda a metodologia de projetos.
quanto a frase Deus está nos detalhes , de um grande arquiteto chamado Ludwig Mies van der Hole, e é dele tambem a frase menos é mais …
Um Abraço!
Novembro 13, 2008 às 7:18 pm |
Olá Bruno,
Obrigado pela dica do arquiteto autor da frase. Que bom que há alguma disciplina no gerenciamento dos seus projetos. Acho que o caminho é saber dosar. Não pra pra se imaginar um projeto como o seu com previsibilidade altíssima. Mas isso não quer dizer que o mesmo não deva ser gerenciado.
Um abraço!
Novembro 25, 2008 às 8:58 am |
Olá, Andriele.
Primeiramente, parabéns pelo blog e em especial por este post.
Quanto à situação A, onde há divergência de opiniões, tomando por base a linha que você traçou entre o mundo completamente desconhecido e as operações continuadas, e em algum lugar nessa linha existe o marco zero de projetos, acredito que quão mais próximo o projeto esteja do marco zero (e consequentemente das operações continuadas e distante do mundo completamente desconhedido), maior será a maturidade do setor/área em que ocorre o projeto. Ou seja, existem outras experiências, literaturas, relatos, etc. em relação ao cenário onde acontece o projeto.
Grande abraço,
Paulo Alves Jr.
Fevereiro 4, 2009 às 12:16 pm |
Olá Andriele, seu blog já está nos meus “favoritos”!
Parabéns pelo texto. Concordo plenamente com voce pois, existem projetos e projetos ! Cada um deve ser tratado de forma exclusiva, sem regra padrão. Aqui na minha empresa passei por uma situação dessas recentemente onde implantei uma ferramenta de B.I. e a empresa me trouxe um projeto padrão prontinho. Resultado ficou totalmente fora do previsto e o projeto teve que ser alterado várias vezes. Afinal minha empresa não é igual a outras que ele já implantou… Cada um tem o seu “negócio” definido de forma diferente…
um abraço,
Marcio Dellatorre Tavares
Fevereiro 4, 2009 às 12:45 pm |
Olá Marcio,
Fico muito feliz em estar na sua lista de “favoritos”. Agradeço a leitura e a atenção em comentar o post. Seu exemplo é enriquecedor e ajuda a ilustrar bem o ponto que quis tratar no artigo.
Grande abraço,
Andriele